Letras

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Primavera nos dentes

Poema de João Apolinário de «Morse de Sangue»
Música: Pedro Rodrigues/ coro da Achada

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
e no centro da própria engrenagem
inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
e envolto em tempestade, decepado
entre os dentes segura a primavera.

Vós, que lá do vosso império

Cânone de Pedro R. (Set. 2017)
Quadra de António Aleixo


Vós, que lá do vosso império,
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo a sério

terça-feira, 18 de abril de 2017

Liberdade (Bocage)

Liberdade
poema de Bocage
música: PR/ coro da Achada (2017)
Liberdade querida, e suspirada,
Que o despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena
Que o sereno clarão da madrugada:
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada.
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais do que os astros brilha:
Vem, solta-me o grilhão de adversidade;
Dos céus descende, pois dos céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

De todas as coisas certas

cânone (2015)
com frases de Um homem é um homem de B. Brecht

de todas as coisas certas
a mais certa e sabida é a dúvida
de todas as coisas certas
a mais certa e sabida é a dúvida
e ouvi muitas dizer de muitas coisas:
"é certo e sabido"

Saio de casa

cânone (2015)

saio de casa
saio de casa
vento na cara
e pé no chão

e pé no chão
vento na cara
saio de casa
cinco ideias tem a mão

Como uma pedra no silêncio

Poema de Mário Dionísio
Música de Pedro Rodrigues e Coro da Achada

como uma pedra no silêncio
como um chicote na moleza
 o pensamento preciso sem cerimónia
dá um passo

o ponteiro do relógio com ferrugem
embota as hélices frementes
mas na cilada dos divãs crescente
o pastor de macaco pensa que
não basta cruzar os braços

não basta cruzar os braços
esperar a lua entre nuvens
enquanto a paisagem se derrama
não basta pensar um dia

roldanas prontas nos guindastes
rolam pesados cabos de aço
é preciso criar os dias
é preciso criar o sentido dos dias

Ronda dos paisanos

José Afonso
LP Baladas e canções, 1964

Ao cair da madrugada
No quartel da guarda
Senhor general
Mande embora a sentinela
Mande embora e não lhe faça mal

Ao cair do nevoeiro
Senhor brigadeiro
Não seja papão
Mande embora a sentinela
Mande embora a sua posição

Ao cair do céu cinzento
Lá no regimento
Senhor coronel
Mande embora a sentinela
Mande embora e deixe o seu quartel

Ao cair da madrugada
Depois da noitada
Senhor capitão
Mande embora a sentinela
Mande embora o seu guarda-portão

Ao cair do sol nascente
Venha meu tenente
Deixe a prevenção
Mande embora a sentinela
Mande embora e tire o seu galão

Ao cair do frio vento
Primeiro sargento
Junte o pelotão
Mande embora a sentinela
Mande embora e cale o seu canhão

Ao cair do sol doirado
Venha meu soldado
Largue o seu punhal
Vá-se embora sentinela
Vá-se embora que aí fica mal
Vá-se embora sentinela
Vá-se embora que aí fica mal